Um número crescente de consumidores adere a downloads legais. Oferta aumenta, com preços de R$0,30 a R$2,49
Mirelle de França e Bruno Rosa
Quem
ainda está se recuperando do desaparecimento do vinil já pode começar a
sentir saudades do bom (e agora, quase velho) CD. Apesar de ter chegado
com atraso ao Brasil, o acesso legal à música digital já provoca uma
revolução no comportamento dos consumidores no país. Lançadas no ano
passado, lojas virtuais dos portais UOL e Terra, por exemplo, já têm
disponíveis mais de 500 mil faixas cada, com expectativa de chegar a 1
milhão até o fim de 2007. O iMusica, pioneiro nesse mercado, alcançou a
marca de 3 milhões de usuários. Com preços que variam de R$0,30 a
R$2,49 por música, o download já conseguiu dobrar até mesmo as grandes
majors, como são chamadas as gravadoras multinacionais:
— Ainda
não temos como medir esse mercado, porque é tudo muito recente. Os
primeiros números deverão ser conhecidos apenas este ano. Mas existe
uma forte tendência de crescimento da música digital no Brasil, a
exemplo do que vem acontecendo no resto do mundo — explica Paulo Rosa,
diretor geral da entidade que reúne as maiores gravadoras do país, a
Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).
No mundo, a música digital já detém 10% do faturamento
O
executivo da ABPD conta que, na média mundial, a música digital é
responsável por 10% do faturamento da indústria — apesar de os
downloads ainda não serem suficientes para compensar as perdas com
pirataria e queda na venda de CDs. Rosa acredita que, até 2010, o
percentual subirá para 25%, e o Brasil seguirá essa tendência, embora
num ritmo mais lento.
O grande desafio da indústria
fonográfica brasileira é o combate à pirataria. A venda ilegal — tanto
na internet quanto no varejo informal — vem provocando prejuízos
seguidos ao mercado. No ano passado, as gravadoras registraram queda de
12% no faturamento no país, para R$615 milhões. O número de unidades
vendidas caiu 20%, para cerca de 52 milhões.
Fontes
ligadas à indústria prevêem que, em 2007, a queda no faturamento poderá
chegar a 45%. E seriam esses prejuízos astronômicos que estariam
levando grandes companhias a fecharem acordo com lojas virtuais
brasileiras. Fellipe Llerena, sócio do iMusica, portal que fatura cerca
de R$60 mil por mês — são cerca de 30 mil downloads a um preço médio de
R$1,99 — apenas com a venda de música digital, é um dos mais otimistas.
—
A música digital ainda está começando no país. Nos Estados Unidos, são
cerca de 5,5 milhões de downloads diários — conta Llerena.
João
Marcello Bôscoli, um dos sócios da gravadora independente Trama, que
surgiu no início dos anos 2000, é outro que acredita que o CD que
conhecemos hoje está fadado a desaparecer. Segundo ele, o fim do CD
está decretado não apenas em função do crescimento esperado da música
digital. Também por causa da questão ambiental, já que os CDs são
produtos altamente poluentes.
Sobre as lojas virtuais, Bôscoli explica que, um dia, o negócio vai deslanchar:
— É difícil mudar o hábito do brasileiro, que, há mais de cinco anos, baixa música na internet (sem pagar).
O portal UOL lançou a UOL Megastore em maio de 2006 e, em menos de um ano, já comemora os resultados.
—
O custo de logística no Brasil é absurdo. Isso provoca o preço elevado
dos CDs físicos. Pela internet, o preço cai muito. O CD “Cê”, do
Caetano Veloso, por exemplo, sai por cerca de R$45 nas lojas e R$28 na
megastore — disse Gil Torquato, diretor corporativo do UOL, que vende
músicas a partir de R$0,30 a faixa.
Mais novo nesse
mercado, o Sonora, site especializado do portal Terra, foi lançado em
setembro de 2006. Beni Goldenberg, gerente de produto do Terra,
acredita que o preço das músicas digitais tende a cair.
—
Se hoje o preço máximo é de R$2,99, acredito que a curto prazo já pode
baixar para R$2,49, de acordo com o aumento da demanda — afirma.
Com
a facilidade de acesso à música em formato digital, os tradicionais
pontos de venda tentam se adaptar ao ritmo de um novo estilo de
negócios. Empresas como New Disc, Saraiva e Modern Sound — que
registram queda nas vendas do setor ano após ano — investem em eventos
culturais em suas lojas para atrair clientes. A cadeia francesa Fnac já
estuda comercializar em seu site no Brasil a venda de músicas digitais.
Em 2006, as vendas de CDs caíram 5% na rede. Pedro Otávio Tibau,
gerente da Modern Sound, também verificou queda semelhante em sua loja.
A New Disc, que fechou quatro lojas mês passado, viu
suas vendas caírem 20% em 2006. Para atrair os jovens às lojas, a rede
começou a vender instrumentos musicais.
Queda de preços impulsiona vendas de MP3 player
O
publicitário Gustavo Bastos ainda mantém vivo o hábito de entrar numa
loja e comprar CDs. A rotina, no entanto, é acompanhada de computadores
e tocadores de música digital, os MP3 players.
— Gosto
de folhear o encarte. Tenho mais de mil CDs. Quando gosto muito de um
álbum, passo as músicas para o computador e transfiro o arquivo digital
para o MP3.
Já o produtor Léo Martinez comprou um tocador de música digital há dois anos. Desde então, o produto entrou na rotina do jovem:
— Desde que comprei o MP3, tenho usado cada vez menos o aparelho de CD, mesmo ouvindo música em casa.
As
vendas de tocadores de música digital continuam em alta no Brasil. No
varejo, a queda nos preços nos dois últimos anos impulsionou os
negócios em até 50% em 2006. De coadjuvantes nas lojas, os itens
passaram a representar o principal gerador de receita. Para André
Liptak, gerente da loja Fuss Conection, no Botafogo Praia Shopping, o
preço de um tocador de 512 MB passou de R$699 para R$399, uma queda de
43%. Na Star Computer, no Shopping Tijuca, as vendas subiram 50% em
2006, com a grande variedade de modelos. A MetroComm, que distribui
aparelhos da Creative, teve alta de 40% nas vendas em 2006.
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